...para acabar de vez com a cultura... ou não!

quinta-feira, agosto 04, 2005

Sítio errado, Ota errada

O Crime da Ota
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Luís Campos e Cunha foi a primeira vítima a tombar em virtude desses crimes em preparação que se chamam aeroporto da Ota e TGV. Não se pode pedir a alguém que vem do mundo civil, sem nenhum passado político e com um currículo profissional e académico prestigiado que arrisque o seu nome e a sua credibilidade em defesa das políticas financeiras impopulares do Governo e que, depois, fique calado a ver os outros a anunciarem a festa e a deitarem os foguetes. Não se pode esperar que um ministro das Finanças dê a cara pela subida do IVA e do IRS, pelo aumento contínuo dos combustíveis e pelo congelamento de salários e reformas, que defenda em Bruxelas a seriedade da política de combate ao défice do Estado, e que, a seguir, assista em silêncio ao anúncio de uma desbragada política de despesas públicas à medida dos interesses dos caciques eleitorais do PS, da sua clientela e dos seus financiadores.
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O afastamento do ministro das Finanças e a sua substituição por um homem do aparelho socialista é mais do que um momento de descredibilização deste Governo, de qualquer Governo. É pior e mais fundo: é um momento de descrença, quase definitiva, na simples viabilidade deste país. É o momento em que nos foi dito, para quem ainda alimentasse ilusões, que não há políticas nacionais nem patrióticas, não há respeito do Estado pelos contribuintes e pelos portugueses que querem trabalhar, criar riqueza e viver fora da mama dos dinheiros públicos; há, simplesmente, um conúbio indecoroso entre os dependentes do partido e os dependentes do Estado. Quando oiço o actual ministro das Obras Públicas - um dos vencedores deste sujo episódio - abrir a boca e anunciar em tom displicente os milhões que se prepara para gastar, como se o dinheiro fosse dele, dá-me vontade de me transformar em “off-shore”, de desaparecer no cadastro fiscal que eles querem agora tornar devassado, de mudar de país, de regras e de gente.
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Há anos que vimos assistindo, num crescendo de expectativas e de perplexidade, ao anunciar desses projectos megalómanos que são o TGV e o aeroporto da Ota. O mesmo país que, paulatinamente e desprezando os avisos avulsos de quem se informou, foi desmantelando as linhas férreas e o futuro do transporte ferroviário, os mesmos socialistas que, anos atrás, gastaram 120 milhões de contos no projecto falhado dos comboios pendulares, dão-nos agora como solução mágica um mapa de Portugal rasgado de TGV de norte a sul. Mas a prova de que ninguém estudou seriamente o assunto, de que ninguém sabe ao certo que necessidades serão respondidas pelo TGV, é o facto de que, a cada Governo, a cada ministro que muda, muda igualmente o mapa, o número de linhas e as explicações fornecidas. E, enquanto o único percurso que é economicamente incontestável - Lisboa-Porto - continua pendente de uma solução global, propõe-nos que concordemos com a urgência de ligar Aveiro a Salamanca ou Faro a Huelva por TGV (quantos passageiros diários haverá em média para irem de Faro a Huelva - três, cinco, sete mais o maquinista?).
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Quanto ao aeroporto da Ota, eufemisticamente baptizado de Novo Aeroporto Internacional de Lisboa, trata-se de um autêntico crime de delapidação de património público, um assalto e um insulto aos pagadores de impostos. Conforme já foi suficientemente explicado e suficientemente entendido por quem esteja de boa-fé, a Ota é inútil, desnecessário e prejudicial aos utentes do aeroporto de Lisboa. E, como o embuste já estava a ficar demasiadamente exposto e desmascarado, o Governo Sócrates tratou de o anunciar rapidamente e em definitivo, da forma lapidar explicada pelo ministro das Obras Públicas: está tomada a decisão política, agora vamos realizar os estudos.
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Mas tudo aquilo que importa saber já se sabe e resulta de simples senso comum:
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- basta olhar para o céu e comparar com outros aeroportos para perceber que a Portela não está saturada, nem se vê quando o venha a estar, tanto mais que o futuro passa não por mais aviões, mas por maiores aviões;
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- em complemento à Portela, existe o Montijo e, ao lado dela, existe uma outra pista, já construída, perfeitamente operacional e que é uma extensão natural das pistas da Portela, que é o aeroporto militar de Alverca - para onde podem ser desviadas todas as “low cost”, que não querem pagar as taxas da Portela e menos ainda quererão pagar as da Ota;
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- porque a Portela não está saturada, aí têm sido gastos rios de dinheiro nos últimos anos e, mesmo agora, anuncia-se, com o maior dos desplantes, que serão investidos mais meio bilião de euros, a título de “assistência a um doente terminal”, enquanto a Ota não é feita;
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- os “prejuízos ambientais”, decorrentes do ruído que, segundo o ministro Mário Lino, afectam a Portela são uma completa demagogia, já que pressupõem não prejuízos actuais, mas sim futuros e resultantes de se permitir a urbanização na zona de protecção do aeroporto;
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- a deslocação do aeroporto de Lisboa para cerca de 40 quilómetros de distância retirará à cidade uma vantagem comercial decisiva e acrescentará despesas, consumo de combustíveis, problemas de trânsito na A1 e perda de tempo à esmagadora maioria dos utentes do aeroporto, com o correspondente enriquecimento dos especuladores de terrenos na zona da Ota, empreiteiros de obras públicas e a muito especial confraria dos taxistas do aeroporto.
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O negócio do aeroporto é tão obviamente escandaloso que não se percebe que os candidatos à Câmara de Lisboa não façam disso a sua bandeira de combate eleitoral e que, à excepção de Carmona Rodrigues, ainda nem sequer se tenham manifestado contra. Carrilho já se sabe que não pode, sob pena de enfrentar o aparelho socialista e os interesses a ele associados, mas os outros têm obrigação de se manifestarem forte e feio contra esta coisa impensável de uma capital se ver roubada do seu aeroporto para facilitar negócios particulares outorgados pelo Estado.
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A Ota e o TGV, que fizeram cair o ministro Campos e Cunha, são um exemplo eloquente daquilo que ele denunciou como os investimentos públicos sem os quais o país fica melhor. Como o Alqueva, à beira de se transformar, como eu sempre previ, num lago para regadio de campos de golfe e urbanizações turísticas, ou os pendulares do ex-ministro João Cravinho, ou os estádios do Euro, esse “desígnio nacional”, como lhe chamou Jorge Sampaio, e tão entusiasticamente defendido pelo então ministro José Sócrates. Os piedosos ou os muito bem intencionados dirão que é lamentável que não se aprenda com os erros do passado. Eu, por mim, confesso que já não consigo acreditar nas boas intenções e nos erros de boa-fé. Foi dito, escrito e gritado, que, dos dez estádios do Euro, não mais de três ou quatro teriam ocupação ou justificação futura. Não quiseram ouvir, chamaram-nos “velhos do Restelo” em luta contra o “progresso”. Agora, os mesmos que levaram avante tal “desígnio nacional”, olham para os estádios de Braga, Bessa, Aveiro, Coimbra, Leiria e Faro, transformados em desertos de betão e num encargo camarário insustentável, e propõem-nos um TGV de Faro para Huelva e um inútil aeroporto para servir pior os seus utilizadores, e querem que acreditemos que é tudo a bem da nação?
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Não, já não dá para acreditar. O pior que vocês imaginam é mesmo aquilo que vêem. Este país não tem saída. Tudo se faz e se repete impunemente, com cada um a tratar de si e dos seus interesses, a defender o seu lobby ou a sua corporação, o seu direito a 60 dias de férias, a reformar-se aos 50 anos ou a sacar do Estado consultorias de milhares de contos ou empreitadas de milhões. E os idiotas que paguem cada vez mais impostos para sustentar tudo isto. Chega, é demais!
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Miguel Sousa Tavares
in Público

quinta-feira, julho 21, 2005

Mas o que vem a ser isto?

Caros Amigos,
Ocorreu-me uma simples questão:

Pensam que Portugal é uma república das bananas ou uma república de bananas?

Se acham que nenhuma das hipóteses é válida, fiquem por cá, trabalhem que nem uns mouros e declarem todos os rendimentos ao fisco;

Se pensam que uma das hipóteses é real, aconselho a repensarem o vosso futuro;

Se concordarem com as duas hipóteses, penso que a vossa melhor saída é candidatarem-se a ministro das finanças!

sexta-feira, junho 03, 2005

Mail do Min. L.C. e Cunha

Para vossa informação e serviço à nação, eis o endereço electrónico do nosso caríssimo Ministro das Finanças Luis Campos e Cunha;

gab.mf@mf.gov.pt

Façam o favor de o utilizar sem restrições. Serviço gratuito.

domingo, maio 22, 2005

A Morte Saiu À Rua

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação.

José Afonso, Eu Vou Ser Como a Toupeira, 1972

O Triunfo dos Porcos

«Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros»

Amigo dos órfãos!
Fonte de felicidade!
Senhor dos baldes das lavaduras!

Oh, como a minnha alma
Arde quando o vejo
Teus olhos calmos e de comando
Iguais ao sol no céu,

Camarada Napoleão!
És o doador de
Tudo que as criaturas amam,
A barriga cheia duas vezes ao dia e palha limpa para rebolar;
Cada animal, grande ou pequeno,
Dorme em paz no seu estábulo.
Tu vigias sobre tudo,

Camarada Napoleão!
Tivesse eu um leitão
Quando se tornasse grande.
Fosse gordo ou magro.
Ele aprenderia a ser
Fiel e verdadeiro a ti,
Sim, o seu primeiro grito seria
Camarada Napoleão!

Este é o primeiro grande sucesso alcançado por George Orwell, a cinco anos de sua morte. O livro denuncia o totalitarismo político do ditador soviético Josef Stalin, interpretado nesta fábula como um traidor da causa bolchevista. Os animais de uma fazenda (no título original em inglês "Animal Farm"), fartos da dominação humana, rebelam-se em grande estilo, mas os propósitos de sua revolução são desvirtuados. George Orwell é realista, cirúrgico, exacto, e a sua escrita, contundente, um exemplar literário que ambiciona ao manifesto.

quinta-feira, abril 21, 2005

As Portas de Roma

Tentando decifrar aquela voz que ecoa dentro de cada um de nós, Otag Redhle caminhava por entre as sebes verdejantes da Baviera. Otag, um homem alto, ariano e andar adunco, contemplava o castanho da terra, o verde das árvores, captando pausadamente na sua memória aquelas imagens de ornatos naturais.

Litbus Oflodhor, aristocrata do Reino da Dinamarca, concebia com os seus partidários, planos de poder e renovação. Aquele homem de olhar bonachão e andar cadenciado, político delicado e cortês, sonhava com a prosperidade dos mais débeis com rara indulgência.

Onun Athir, filho de Hatshepsut, viúva de Tutmosis II, vivia dividido entre a expansão do império e a evolução das artes, do qual era seu principal mecenas. Nefertiti e Kiya eram as suas barregãs, diferentes no carácter e antípodas no estilo. Athir, de rosto ávido mas sereno, agarrava a terra e o mar com as suas mãos, deixando escorrer por entre os seus longos dedos, o desejo e a quimera.

Na anciã ilha de Zulek, profetas e pensadores decifravam o caminho sonhado pelos seus antepassados, aquele que os levaria às Portas de Roma.

Em Lolland, condado vizinho ao de Litbus, era assassinado por Hamlet o príncipe regente Rhilati, o mais desejado do reino. Litbus, acossado pelas tropas de Hamlet, parte com os seus seguidores para terras do sul. Acabam por achar pouso seguro entre Cárpatos e Balcãs, em terras vizinhas ao Reino da Bulgária. Pouco tempo depois, viajou com locais até às margens do rio Danúbio, onde um profeta Zulek lhe revelou parte do enigma sobre as Portas de Roma. Decide dedicar a sua vida ao seu estudo e à descoberta de tão místico lugar. Aquele, que dizem ser, o lugar para os eleitos. E daí partiu, sem mais voltar.

Otag, decidindo parar junto a um ribeiro, deparou-se com uma estranha forma a navegar sobre aquela água cristalina. Determinado a alcançá-lo, entrou pelo ribeiro e num gesto lesto aquele arredio objecto estendia-se nas suas mãos. Um amontoado de papel grosso, amarelado pelo tempo e rasgado diametralmente, revelava um quadro sinóptico e metade de um mapa. A linguagem não sendo a de Otag, era ao mesmo tempo familiar. Histórias lidas quando criança faziam-no lembrar daquele sistema codificado e instruções enigmáticas, onde no fim se podia ler a palavra Zulek. Apelando à sua faculdade de conservar e reproduzir ideias e imagens, conseguiu decifrar a parte legível, desencadeando em si uma sensação de exaltação pueril. As Portas de Roma estavam ali bem ao seu redor, faltando apenas interpretar aquilo que não era compreensível no seu todo.

Athir, a quem aios da corte trataram com acinte, decide partir para as Terras de Ram, onde velhos e navegantes lhe mostraram as mais belas palavras. Conseguiu aprender a significação da palavra Roma. Numa noite quente e húmida, como num sonho, uma voz disse-lhe qual o caminho. Assim fez, e esquecendo vestes imperiais e divisas douradas, despediu-se das gentes de Ram, Arodhamah e Amassham, ao encontro do segredo Zulek e das Portas de Roma.

Mil anos passaram, ou talvez tenham sido só mil dias, mas na altura certa e no lugar determinado pelo vento, Athir, Otag e Litbus alcançaram a sua mais íntima utopia. Juntando-se em forma de triângulo equilátero, contemplaram o que à volta se lhes deparava. Naquele lugar de cores por descobrir, acima do que é tangível como um rutilante véu de estrelas, por detrás de três portas, três vultos foram ao seu encontro. Sunev, Etidorfa e Asimetra acercaram-se, deram-lhes as mãos, e com a voz em surdina segredaram “Estas são as Portas de Roma. É aqui o vosso lugar”.

quarta-feira, abril 20, 2005

Optimista Céptico

Eu já estou farto das fotografias
que me querem vender todos os dias.
os legionários mais os seus troféus
no chão a sangrar.

Não posso mais olhar para aquela imagem,
parece que é sempre a mesma paisagem.
a hipocrisia deste novo império
faz-me vomitar.

Por isso eu tornei-me um optimista céptico,
não sou bem igual ao céptico opti-místico.
só quero encontrar paz
sem arrastar atrás nem mestre nem Deus.

Já temos a informação cruzada
empacotada e globalizada.
agora só nos falta a convicção
para acreditar.

Há assassinos que não se arrependem.
há tantos pensadores que nunca aprendem.
e há quem insista sempre em aprender
mas não quer pensar.

Por isso eu tornei-me um optimista céptico...

Gostava de ser ecologista exótico
sem perder de vista o meu perfil erótico.

Ainda vou ser ilusionista crónico,
um mestre da fuga, um mago supersónico.

quinta-feira, abril 14, 2005

...e por falar nisso...

Bacalhau com grão - 4 , Bifes sem sal - 1